28/02/2018

Morte Súbita

Por Dr. Marcelo Malta - CARDIOLOGISTA

A morte súbita em atleta pode ser definida como a morte que ocorre durante ou até duas horas após a prática de exercícios físicos, individuais ou coletivos, competitivos ou não. Alguns autores consideram de 6 até 24 horas após a prática de exercícios físicos 1,2. É um evento raro, porém, causa comoção na sociedade principalmente quando ocorre em atletas profissionais devido sua ampla divulgação na mídia, pois estes são vistos pela população como símbolos do segmento mais saudável da sociedade, aonde se acredita que suas qualidades atléticas são reflexos de seu estado de saúde, o que torna difícil de acreditar que esses exemplos possam morrer durante ou após a prática de atividades físicas.

Esse tema nos leva a refletir se o exercício é sinônimo de saúde ou de risco para morte?  A resposta é que ele representa saúde quando praticado de forma regular, respeitando a individualidade de intensidade de esforço adequada para cada pessoa, porém, representa risco quando praticado erroneamente por atletas com doenças cardíacas previamente estabelecidas.

EPIDEMIOLOGIA

Estatísticas de diferentes países mostram que sua prevalência varia de 0,28 a 1 por 100.000 atletas.  Cinco vezes mais incidente no sexo masculino do que no sexo feminino. Algumas séries apontam o futebol e o basquete como os esportes que mais frequentemente acarretam casos de morte. Entretanto, outros estudos sugerem que a morte súbita ocorre com mais frequência em maratonistas do que em praticantes de outras modalidades esportivas, sendo esta incidência estimada em 1/50.000 nestes corredores 3,4. A maioria dos casos de morte súbita cardíaca nos atletas ocorre durante ou imediatamente após exercício físico vigoroso.

FISIOPATOLOGIA

A maioria das pessoas que evoluem com morte súbita durante exercício físico apresenta doença cardíaca subjacente que justificava sua morte, uma vez que é extremamente difícil o desencadeamento de morte súbita em atleta com o coração sadio. A Taquiarritmia Ventricular e o mecanismo responsável pela morte súbita em 80% dos casos, ficando os outros 20% a cargo da bradiarritmia e da assistolia. É necessário que além de problemas cardíacos estruturais haja também a incidência de fatores fisiopatológicos, os chamados “gatilhos, que são capazes de ativar mecanismos que possam levar a instabilidade elétrica do coração e, consequentemente, a uma arritmia fatal.

ETIOLOGIA

Abaixo dos 35 anos de idade, as causas mais freqüentes são as cardiopatias congênitas, sendo a cardiomiopatia hipertrófica a mais prevalente seguida das anomalias congênitas da artéria coronária e da hipertrofia idiopática do ventrículo esquerdo. Acima dos 35 anos, a doença arterial coronariana é a causa mais comum. Estima-se que cerca de 90% das vítimas de morte súbita possuam cardiopatia conhecida ou não diagnosticada. Assim, na maioria dos casos, a morte súbita ocorre por causas que poderiam ser previamente diagnosticadas e evitadas por uma avaliação médica prévia à realização da atividade física.

AVALIAÇÃO MÉDICA

A principal medida preventiva para diminuir o risco de morte súbita em atletas, sejam eles profissionais ou não, é a avaliação médica antes de iniciar a atividade física. Essa avaliação deve ser feita todos os anos e tem como objetivo diagnosticar a presença de doenças já instaladas, além de fazer um rastreio de possíveis doenças que possam vir a se desenvolver e que tenham na atividade físico-esportiva o “gatilho” necessário para a ocorrência de um evento fatal 5. De acordo com a American Heart Association, a avaliação clínica pré-participacão deve ser composta por anamnese detalhada e um exame físico rigoroso, enquanto a Sociedade Europeia de Cardiologia recomenda a inclusão rotineira do eletrocardiograma de 12 derivações. No entanto, ambas as sociedades preconizam que devam ser realizados exames complementares que variam conforme uma suspeita maior ou menor de doença acometendo o atleta 6,7.

Devido sua alta prevalência, uma importante diferenciação deve ser feita entre a cardiomiopatia Hipertrófica e a “síndrome do coração do atleta”. Na síndrome, o exercício físico intenso leva a hipertrofia do ventrículo esquerdo devido a alta demanda enérgica, porém, tem caráter benigno e reversível. Esta diferenciação é importante para que não se contraindique exercício físico em situações benignas e nem coloque em perigo a vida de um atleta com alto risco de falecer subitamente.

*Como bem observado por Dr. Carlos Macias, outra característica importante é presença de alteração no strain miocárdico nos pacientes com Miocardiopatia Hipertrófica, o que não acontece nos paciente com Síndrome do Coração do Atleta.

CONCLUSÃO:

A avaliação pré – esportiva é uma importante medida que tem que ser cada vez mais estimulada para minimizar o risco de morte súbita durante a prática de atividade física. A utilização de exames complementares tem que ser individualizada de acordo com o perfil do paciente e achados durante anamnese e exame físico minucioso. O surgimento de serviços médicos especializados em avaliação esportiva tem facilitado a investigação de doenças cardíacas pré-existentes que possam colocar em risco a vida de um atleta além de estimar a intensidade adequada de atividade física para cada paciente. Em face da possibilidade da ocorrência de morte súbita em centro de treinamento físico (Clubes, academias....) durante os treinamentos e principalmente em locais de competição, deve-se dispor nestes locais de profissionais de saúde aptos para realização do suporte básico de vida e dispor de meios de rápida comunicação para solicitação de suporte avançado de vida, além do acesso imediato ao principal instrumento capaz de reverter uma parada cardiorrespiratória que é o desfibrilador externo automático – o DEA. 

REFERÊNCIAS

1. Amsterdam EA. Sudden death during exercise. Cardiology 1990;77:411-7.

2. Burke AP, Farb A, Virmani R, Goodin J, SAmialek JE. Sports related and non-related sudden cardiac in young adults. Am Heart J 1991;121(2)Pt1:568-75.

03. Bronzatto HA, da Silva RP, Stein R. Morte subita relacionada ao exercicio. Rev Bras Med Esporte, 2001;7:163-169.

04. Lipp LN. Identify the young athlete at risk for sudden cardiac death. JAAPA, 2001;14:26-28,31-32,35-37.

05. Siebra FBA, Feitosa Filho SG, Feitosa SG. Rev Bras Clin Med, 2008;6:184-190

06. Maron BJ. How should we screen competitive athletes for cardiovascular disease? Eur Heart J, 2005;26:428-430.

07. Maron BJ, Thompson PD, Ackerman MJ, et al. Recommendations and considerations related to preparticipation

screening for cardiovascular abnormalities in competitive athletes: 2007 update. Circulation, 2007;115:1643-1655.

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